Neste dia em que a Igreja celebra a Solenidade de Santa Escolástica, padroeira das monjas beneditinas, somos convidadas a contemplar o mistério de uma vida profundamente enraizada no amor, na escuta e na comunhão fraterna.
Inspiradas na reflexão partilhada por Madre Rosann Ocken, Prioresa Geral, voltamos nosso olhar para a imagem de São Bento e Santa Escolástica, recordando o único episódio da vida da santa narrado por São Gregório Magno. Nele, vemos como a oração de Santa Escolástica, nascida de um amor profundo, foi capaz de comover o coração de Deus, provocando uma forte chuva que impediu São Bento de partir, permitindo que permanecessem juntos em santa comunhão. Diante desse acontecimento, São Gregório conclui: “Muito obteve quem mais amou.”
O amor que escuta
Os olhos de Santa Escolástica, conforme descritos na reflexão, revelam uma alma atenta e compassiva. Ela não apenas ouve, mas escuta profundamente, acolhendo o mistério do outro sem julgamento. Sua escuta é marcada por amor, capaz de perceber as preocupações, as dores e o cansaço do irmão. Essa escuta verdadeira nasce de um coração aberto, disposto a acolher o outro em sua totalidade.
As mãos que sustentam e dão vida
Outro detalhe que nos interpela são as mãos de Santa Escolástica, que seguram com firmeza e ternura as mãos de São Bento, retratado como alguém cansado e sobrecarregado. Esse gesto simples comunica segurança, encorajamento e cuidado. Ele nos recorda o gesto de Jesus ao tomar pela mão a filha de Jairo e dizer: “Menina, levanta-te.” Assim também, nossas mãos — por meio do cuidado, da gentileza e do serviço — podem ser instrumentos de vida, consolo e esperança.
A juventude do espírito
O rosto jovial de Santa Escolástica expressa a força de uma vida vivida com intenção, amor e fidelidade aos caminhos de Deus. Embora o corpo envelheça, o espírito pode permanecer jovem quando se deixa renovar pela presença divina. Essa juventude espiritual nasce da escuta cotidiana da Palavra, da atenção ao ordinário e da capacidade de reconhecer Cristo presente na rotina diária e nos encontros simples da vida comunitária.
Uma vida simples, profundamente sagrada
A reflexão também nos lembra que nossas vidas, aparentemente simples e comuns, são atravessadas pela presença viva de Deus. No ritmo dos dias, na oração, no trabalho e na convivência fraterna, somos chamadas a permanecer atentas à graça que transforma. Mesmo os espinhos, as fragilidades e os desafios podem se tornar caminhos de compaixão, confiança e abandono na misericórdia de Deus, como nos recorda São Bento: “Nunca perca a esperança na misericórdia de Deus.” (RB 4,74)
À medida que nos abrimos à ação de Deus, nossos corações se purificam e nossas almas são transformadas, não por mérito próprio, mas pela fidelidade de Deus que age em nós.
Enraizadas e alicerçadas no amor
Que, a exemplo de Santa Escolástica, sejamos mulheres de escuta profunda, de mãos estendidas e de corações compassivos. Que nossos olhos saibam contemplar Cristo, nossos ouvidos estejam atentos à sua voz e nossas mãos prontas para servi-Lo em cada irmã e em cada pessoa que encontramos.
Como reza São Paulo aos Efésios (3,16–19), que sejamos enraizadas e alicerçadas no amor, para conhecer a plenitude de Deus que excede todo entendimento.
Que esta solenidade renove em nós o desejo de viver com atenção, ternura e fidelidade ao carisma beneditino, deixando que o amor seja sempre o critério maior de nossas escolhas e relações.